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O trabalho artístico de Caio Marcolini se confunde com seu ofício e formação em ourivesaria, artes e desenho industrial. Se por um lado é possível imaginar as contradições e particularidades entre tais campos, a partir de suas lógicas distintas de pensamento e produção, o que Caio faz é justamente confundir fronteiras, ao deslocar seu construto entre esses espaços discursivos. 

 

Pensar o fazer escultórico na contemporaneidade é resgatar um ofício que remonta à própria História da arte, para então, atualizá-lo. Existe, portanto, uma herança da tradição da escultura que Caio exercita em sua prática artística. Ali investiga o material, testa, desenvolve técnicas e ferramentas, adaptando o conhecimento adquirido sobre o universo da escultura, do desenho e da artesania para suas próprias necessidades. 

 

Sua prática é nutrida e se nutre pelo gesto do movimento: a ideia se move à feitura do objeto, uma trama maleável de infinitos elos, e toma forma, se reconstrói, tanto quanto permita o ensejo de seu criador. Também podemos percorrer as delicadas construções que elabora o artista pegando emprestado conceitos arquitetônicos; uma vez que entre ritmo, repetição e harmonia, podemos buscar solidez, funcionalidade e beleza, características de uma boa construção segundo Vitruvius.

 

Há nessa busca construtiva um embate direto entre artista e matéria, é de tanto observá-la que pode finalmente tensionar e expandir, mudar de direção. É interessante notar como o artista entende cada peça de forma autônoma, mas igualmente pertencente a um conjunto maior que denomina colônia. Assim, os organismos, que possuem características que podem remeter à constituição celular, se alastram, se reorganizam, em um pulsar contínuo que é o da própria vida. 

 

Como observou Jean Genet, ao conceituar a relação entre obra e observador*, cada objeto cria seu espaço infinito, o que nos faz concluir que cada obra produz seu próprio universo de interpretação. E é com as pistas que nos dá o artista que encontramos a chave para desvendar suas motivações e condições de criação, e apreender, como continua o autor, em sua solidão simultaneamente essa imagem e o objeto real que ela representa.

 

Assim, o papel do artista não é o de criar situações ou objetos para solucionar os problemas do mundo, mas viver imbricado nessa tensão entre desejo e realidade, respondendo com suas próprias ferramentas às inquietudes do que o rodeia. Nesse sentido, pode o artista se deslocar entre diversas funções e labores, pouco importa a razão, uma vez que falamos de demandas pessoais e individuais. 


Outra coisa acontece quando é o trabalho que se move entre contextos. É possível pensar que cada vez que se infiltram em novos ambientes, as colônias de Caio assumem conotações também sempre mutantes: enganam os olhos distraídos em meio à urbe, flutuam pelo espaço expositivo, escorrem pelas paredes e vestem corpos, contaminando e sendo contaminadas por seus receptáculos e espectadores.

*Jean Genet. O ateliê de Giacometti. São Paulo: Cosac & Naify Edições, 2000.

Clara Sampaio - Artista Visual e Curadora Independente . 2020

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